” Esses dias tive um sonho loucamente poético.
Era assim: eu estava numa praça, um ambiente meio Centro de porto alegre, observando as pessoas passarem pela calçada, observando o banco que a havia na frente, observando o segurança e pensando, pensando, pensando.
Eis que o pensamento de repente começa a vir em forma de um texto na cabeça daquele eu – personagem no sonho, e vem em forma de um texto lindo, perfeito para ser escrito.
Ao mesmo tempo que eu observava tudo ao meu redor, sentia um fluxo de consciência interior jorrando em palavras lindas, prontas para serem escritas.
Eu precisava escrever aquilo, não podia perder tantas idéias prontas e boas, por isso a minha consciência invadiu o sonho dizendo que eu precisava acordar para botar aquilo no papel.
E eu acordei – mas dentro do sonho.
E era como se eu realmente tivesse acordado, porque era a minha cama, a minha mesinha ao lado, o meu bloquinho de anotações na mesa, tudo igual.
E eu começo a escrever, escrever, escrever todas aquelas idéias lindas, até que quando está quase no final do texto, feliz por ter conseguido registrar tanta coisa já, me dou conta de que ainda estou sonhando.
Nervosíssima, acordo de verdade, ligo a luz ao lado e pego o bloquinho e a caneta, na pressa de conseguir escrever tudo de novo. Mas só que consigo registrar é o final, a parte que faltava escrever no sonho. Não é louco & lindo? Só a mente insana de uma escritora para ter um sonho tão complexo.
Mas, como vocês devem estar querendo saber, vou colocar aqui a única parte que me restou dessa jornada noturna: “Para onde vão as vidas que a gente não vive, as possibilidades, todos os eus que nunca chegaremos a ser?” Para onde vão? Será que vão para o mesmo lugar das idéias perdidas? Fiquei pensando nisso desde então e me lembrei de Gide dizendo que o diabo da vida é que entre cem caminhos, a gente tem que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. Quantas são as vidas que eu poderia ter vivido se não tivesse feito as escolhas que fiz? Como seria eu sem ter morado em Miami, numa viagem que foi tão decisiva para a minha personalidade? Onde foi parar essa Carol? E para onde foi a bailarina que eu teria sido se não tivesse largado o balé? Se eu não tivesse namorado uma certa pessoa, eu não teria conhecido através dele outro namorado meu, e como seria? Eu seria diferente se ele não tivesse passado pela minha vida? A minha vida seria diferente? E para onde foi essa vida sem ele? Se a minha professora de piano quando eu era pequena não fosse tão chata, eu tocaria piano lindamente bem, pois tinha o dom, mas larguei. Essa Carol que toca piano, para onde foi? E se o meu pai não tivesse morrido quando eu tinha três anos, eu seria diferente? E para onde foi essa Carol com pai? Onde foi parar ela? São tantas as possibilidades, tantos os caminhos que teriam sido vividos se não fosse um detalhe do destino que, de repente, mudou tudo. E nesses detalhes decisivos, vamos vivendo, sempre assombrados pelas várias possibilidades do ser, pelas vidas não vividas flutuando em volta de nós, e eventualmente, em momentos de melancolia, sentindo essa dor de ser apenas uma, em apenas uma vida – sentindo fundo a nostalgia das outras noventa e nove.”
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